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BRASIL TEM MAIS DE MEIO MILHÃO DE ADULTOS COM ESQUIZOFRENIA, APONTA ESTUDO
Por Enrique Brazil
Publicado em 29/11/2025 19:54
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O Brasil registra 547.202 adultos com 18 anos ou mais vivendo com esquizofrenia, o que corresponde a 0,34% da população adulta. Os dados integram um estudo realizado por pesquisadores da Unifesp, USP e UFPR, com base na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019.

A análise, intitulada “A prevalência da Esquizofrenia no Brasil: Vulnerabilidade Social como Consideração Fundamental para o Cuidado e Políticas Públicas”, relaciona o transtorno à desigualdade social e econômica. Entre os mais afetados estão homens de 40 a 59 anos, com baixa renda e escolaridade, moradores de áreas urbanas, desempregados e vivendo sozinhos. No total, foram avaliadas informações de 91 mil adultos.

A PNS, conduzida pelo Ministério da Saúde em parceria com o IBGE, é o maior inquérito domiciliar de saúde do país. Segundo os pesquisadores Ary Gadelha, da Unifesp, e Raffael Massuda, da UFPR, esta é a maior amostra nacional já utilizada para estimar a prevalência da esquizofrenia no Brasil, preenchendo uma lacuna histórica. Estudos anteriores eram restritos a cidades como São Paulo, Porto Alegre e Florianópolis.

Massuda destaca que o questionamento direto sobre diagnóstico de esquizofrenia na PNS permite interpretar, com base em uma amostra robusta e representativa, o cenário da doença no país. Já Gadelha ressalta que o impacto vai além dos pacientes, alcançando milhões de familiares. “A condição costuma começar por volta dos 18 anos e acompanhar a pessoa por toda a vida, repercutindo na rotina de pais, mães e filhos”, afirma.

A análise mostra um quadro marcado pela vulnerabilidade: 54,8% dos diagnosticados são analfabetos ou têm ensino fundamental incompleto, apenas 10,5% concluíram o ensino superior, e 82,2% não possuem emprego com carteira assinada. O percentual de prevalência pode ser ainda maior, estima Gadelha — até 30% acima do indicador atual —, já que a pesquisa não contempla pessoas em situação de rua ou institucionalizadas.

A esquizofrenia reduz a expectativa de vida em até 15 anos e está diretamente associada a desemprego, pobreza e isolamento social. No Brasil, onde desigualdades estruturais são marcantes, esses efeitos são ainda mais profundos.

O transtorno afeta a forma de pensar, sentir e se comportar, surgindo geralmente no fim da adolescência. Homens tendem a desenvolver a condição mais cedo e de forma mais grave; nas mulheres, o início costuma ser mais tardio e brando. Embora não haja cura, os sintomas podem ser controlados com medicamentos que atuam na dopamina. A doença resulta da interação entre predisposição genética e fatores ambientais, como complicações obstétricas, infecções, estresse intenso, uso de drogas e exposição à violência.

O estudo também discute duas principais teorias que relacionam esquizofrenia e desigualdade. A teoria da causa social (social causation) aponta que populações vulneráveis estão mais expostas a fatores ambientais de risco, aumentando a chance de adoecimento — hipótese apoiada por evidências consistentes. Já a teoria do social drift (deriva social) sugere que, após o início da doença, dificuldades de estudo, trabalho e estabilidade econômica podem levar à perda de renda e mobilidade social ao longo da vida.

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